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Trata-se de criar um Fado teatralizado, recorrendo ao efeito que a repentina falta de luz opera nas pessoas, silenciando-as. Assim, retirada a luminosidade ao local da exibição, enquanto o intérprete acende lento e cerimonioso uma vela antecipadamente posicionada, a introdução musical aguenta a cena durante cerca de trinta segundos. Segue-se a interpretação vincadamente pausada e gestualizada até ao penúltimo verso, momento em que há uma suspensão para que o intérprete com um sopro apague a vela e termine o trecho em grande folgo completamente às escuras, o que de imediato provocará um bem sentido e empolgante aplauso. Entrego-lhe pois, Ex.mo Mário Henriques, este singelo poeminha à sensibilidade e devoção dos seus dedos. Quiçá em si e consigo reencontre a saudosa parceria «letra-e-música» que tive com Álvaro Martins. |
FADO PARADIGMA

Enquanto alinho palavras,
ora doces, ora amargas,
e imagino uma vela,
deixai que o vosso olhar
se prenda a flutuar
ao redor da chama dela.
O nosso Fado é assim
de príncipio até ao fim
luzinha balanceante
que ameaça apagar-se
ou então iluminar-se
entre sombras oscilante.
Vivemos sem dar por ela
e qual chama singela
que acesa conservamos,
ardemos anos a fio
até ao rés do pavio
ou de repente apagamos!
Enquanto milhões de velas
se acendem como estrelas,
umas menos, outras mais,
o Fado da nossa vela
quando se apaga revela
que todos somos iguais...
Versos: Torre da Guia
Música: Mário Henriques br>

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